Natura On Line

domingo, 1 de novembro de 2009

A Graça de Deus na Criação, na Cultura, na sociedade e na economia

Ariovaldo Ramos
O terrível, num tema como esse, é escolher a abordagem: ou começar pela análise da criação, da cultura, da sociedade e da economia, num dado contexto, e delinear o que seria, nestes, ação da graça; ou optar por uma definição do que é graça, em cada tema, estabelecendo, assim uma possibilidade de detecção desta em cada qual, como um princípio de conduta.
Escolhi a Segunda.
Certa feita, ouvi Noé Stanley dizer, com muito bom humor , que teólogo latino americano não tem teses, tem "apuntes".
E eu, que nem teólogo sou, tenho apenas rabiscos, e é isso que ofereço aos irmãos, meros rabiscos, frutos de reflexão simples.
Que o Deus triúno possa fazer deles uso. Amém!

"'Deus é infinitamente bom?, perguntávamos. 'Sim, infinitamente.' 'Ele sabe tudo que vai acontecer?' 'Sim...'respondia o padre, já desconfiado. 'Então, se ele sabe que fulano vai pecar e vai para o inferno, por que ele cria o cara?' Nenhum padre me respondeu essa questão atéia, até hoje." Arnaldo Jabor
Desprezando o conteúdo utilitário da questão – só criar o que me vai ser útil; o que não dará dor de cabeça – ela tem pertinência em si, principalmente quando nos deparamos com um mundo mal.
Se pudesse ser dito que Deus não sabia, e que está correndo atrás do prejuízo...mas. a onisciência lhe é inerente.
O problema, penso, não está apenas na criação, mas , também, na manutenção da mesma: como pode um Deus santo manter um mundo mal?
Teríamos, ademais, uma questão de lógica:
o apóstolo Paulo, segundo vejo, nos oferece um silogismo: premissa maior: "nele (Deus) vivemos, e nos movemos e existimos..." premissa menor: "todos se extraviaram..." conclusão: logo, todos desaparecemos, deixamos de existir.
Se Deus é nossa fonte, local e ambiente de existência e, se com ele rompemos, quando no Éden, como podemos continuar a existir? E se nossa queda trouxe maldição para o planeta (Gn 3.17), como pode este estar aí?
A criação de um mundo, que se tornou mal, assim como sua manutenção atentariam contra a onisciência de Deus; contra a sua santidade e contra a vontade e a lógica humanas.
"E no entanto, ela se move" Galileu Galilei
A criação e a sua manutenção exigiriam um fator exógeno como explicação. Esse fator teria de ser capaz de justificar um ato onisciente e de intermediar a relação entre a santidade e a maldade, tornando-a possível.
(Cl 1.15-17) Este é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação; pois, nele, foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades. Tudo foi criado por meio dele e para ele. Ele é antes de todas as coisas. Nele, tudo subsiste.
Paulo parece remeter tudo para Jesus Cristo, o Deus filho encarnado.
Ao Deus filho encarnado, porque, o descreve como a imagem de Deus, portanto, creio, a partir da experiência que com ele tivemos: o Deus que nos fez ver Deus.
Cristo como a imagem de Deus...é a objetivação de Deus na vida humana, a 'projeção' de Deus na tela da nossa humanidade e a encarnação do divino no mundo dos homens (cf Masson, pg 98, n.1). A descrição é revelatória, mais do que ontológica. Ralph P. Martin
Entre todos os textos paulinos este é um dos que explicitamente afirmam a preexistência de Cristo: já existia antes da criação. E porque existia antes da criação, serviu de modelo para a criação toda. E não foi somente modelo, mas participou ativamente na criação. Não somente participou no passado, mas permanece princípio ativo para manter essa criação na existência, na unidade,
para organizá-la e conduzí-la a seu destino. José Comblin
Ao Deus filho encarnado, porque, o apresenta como primogênito, que, sugiro, é uma categoria soteriológica de Cristo, como em Rm 8.29 - "Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos." – uma vez que:
"Primogênito, longe de declarar que Cristo foi criado, salienta que Ele é o alvo de toda a criação com direito de primogenitura, i.e. 'herdeiro de todas as coisas'." Russell P. Shedd
Logo, o apóstolo o estaria delineando em seu mover redentor.
Por que toda a criação seria creditada ao Deus filho a partir do mistério da sua encarnação?
(1Pe 1:18-20) - sabendo que não foi mediante coisas corruptíveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados do vosso fútil procedimento que vossos pais vos legaram, mas pelo precioso sangue, como de cordeiro sem defeito e sem mácula, o sangue de Cristo,
conhecido, com efeito, pré-estabelecido de fato – Henry Alford
antes da fundação do mundo, porém manifestado no fim dos tempos, por amor de vós.
Pedro parece informar que o derramamento do sangue de Cristo foi préestabelecido antes da fundação do mundo. O que significaria que antes que todas as coisas fossem criadas, o Deus filho fez uma entrega, o seu próprio sangue.
(Ap 13:8) - e adorá-la-ão todos os que habitam sobre a terra, aqueles cujos nomes não foram escritos no Livro da Vida do Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo.
"'Desde a fundação do mundo'. Em harmonia com 1 Pe 1.18-21, ensina-se que o Sacrifício de Cristo fez parte do propósito divino antes da fundação do mundo. Os decretos e propósitos de Deus são tão concretos e reais como o próprio acontecimento (At2.23; Ef 1.4)." Russell P. Shedd
Em assim sendo, o que aconteceu, imediatamente, antes da fundação do mundo foi o decreto do sacrifício do Deus filho, o que significaria que, previamente a toda a criação, o Deus filho se assumiu como o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo! (Jo 1:29)
Seria esse o fator exógeno que explicaria a criação de todas as coisas, assim como a sua manutenção?
De fato, tal decreto justificaria o ato onisciente, pois, denunciaria que o Deus triúno se responsabilizou pela redenção da criação, daí poder criar um ser livre, mesmo sabendo que a tal liberdade se voltaria contra o seu doador.
Só valeu a pena criar porque antes que a criatura se voltasse contra o criador, este sacrificou-se por ela, para a resgatar.
O decreto em questão, também, teria força suficiente para manter a existência, uma vez que tal sacrifício mediaria a relação de um Deus santo com uma criação rebelada.
Se assim for:
1-os cordeiros imolados no velho testamento não só apontavam para o futuro como para algo acontecido antes do tempo e, portanto, sempre presente, pois, ato na eternidade;
2-há uma verdade sobremodo assombrosa no verso todas as coisas foram feitas por intermédio dele, e, sem ele, nada do que foi feito se fez. (Jo 1:3).
A Graça
Porque a lei foi dada por intermédio de Moisés; a graça e a verdade vieram por meio de Jesus Cristo. - (Jo 1:17)
Estaria João informando que, assim como a lei foi comunicada por Moisés, a graça e a verdade foram comunicadas por Jesus Cristo?
Se assim for, a graça seria a origem do sacrifício?
para louvor da glória de sua graça, que ele nos concedeu gratuitamente no Amado, - (Ef 1:6)
Paulo parece completar: a graça não apenas foi comunicada por meio de Cristo, a graça estava em Cristo.
Por que em Cristo?
Porque nele temos a redenção, pelo seu sangue, a remissão dos pecados...(Ef 1.7)
A graça estaria, portanto, vinculada ao sacrifício do cordeiro.
Poderíamos, então, dizer, que graça é o favor que o sacrifício de Cristo, instituído na eternidade e manifesto na história, tornou possível; por justificar o ato onisciente da criação e a manutenção de um mundo que se tornou mal, assim como o seu resgate.
Parafraseando Paulo: pela graça todas as coisas foram criadas, mantidas e tornadas passíveis de resgate; e isto é dom de Deus.
O que tais considerações deveriam despertar na Igreja?
Gostaria de sugerir algumas:
1-gratidão: fazei -o em nome do Senhor Jesus, dando por ele graças a Deus Pai. (Col 3:17)
2-nova perspectiva com relação ao sofrimento:
a- sofrimento já é efeito da graça em andamento, como um condenado à morte, que tem sua pena reduzida à prisão perpétua, num primeiro momento, e, mais tarde, é notificado que sua liberdade já foi providenciada, que, agora é só uma questãode tempo: ainda que com suor, obtêm-se o alimento – ainda que com dores, dá-se à luz filhos. E, mesmo o sofrimento vai ter fim. O que significaria que, se a postura frente ao sofrimento é de não murmuração, também, é de não conformismo. Penso que a reação deve ser de solidariedade; pois, mitigar o sofrimento humano é a obra de Deus. b- Deus reagiu à morte, devemos reagir, também, aliando-nos à graça. Lutando pela vida em todas as frentes. c- Desvinculação do sofrimento (enquanto estado cósmico) da questão da represália pelo pecado pessoal (ainda que o pecado traga consequências); é a morte, não o sofrimento que paga pelo pecado – e o cordeiro já a sofreu.
A graça de Deus na cultura
"Cultura é um jeito particular de ser gente" Rubem Alves
Se o prof. Rubem Alves está certo, para falar da graça de Deus teríamos de responder a antiga pergunta do salmista:
que é o homem, que dele te lembres? (Sl 8:4)
Voltemos ao início.
Gn 1:26, 27- Também disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; (...) Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou;
Esse texto marca uma mudança de ritmo e de forma na criação: até então Deus falava e tudo vinha à existência, na criação do homem temos, antecedendo-a, uma declaração de intenção e uma descrição.
Façamos o homem...
A teologia cristã entende que essa afirmação nos apresenta a Trindade, doutrina que afirma haver um só Deus em três Pessoas: Pai, Filho e Espírito Santo, como declara G. W. Bromiley
Gosto de pensar nesse texto como uma declaração de intenção, é como se fosse o resultado de uma conferência entre as três Pessoas.
Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança;
Eis a descrição do projeto: o homem seria à imagem e semelhança de Deus, a Trindade.
O que significaria isto?
Segundo Derek Kidner, para alguns teólogos "imagem é a indelével constituição do homem como ser racional e como ser moralmente responsável, e a semelhança é aquela harmonia com a vontade de Deus, perdida com a queda". Ele, porém, diz que não há, no original, a partícula aditiva "e", de modo que os termos se reforçam (a palavra, então, seria imagem-semelhança). A imagem seria "expressão ou transcrição do Criador eterno e incorpóreo em termos de uma existência temporal, corpórea e própria de uma criatura – como se poderia tentar a transcrição, digamos, de um poema épico numa escultura, ou de uma sinfonia num soneto." O que, segundo Kidner , perdemos dessa imagem-semelhança, na queda, foi o amor, que recuperaremos quando for retomada nossa plena comunhão com o Senhor.
Algo, entretanto, penso que precisa ser considerado: se ser moralmente responsável e racional é ser imagem de Deus, então os anjos também não o seriam?
Ora, se Deus não poupou anjos quando pecaram (2 Pe 2:4)
Como os anjos poderiam pecar se não fossem moralmente livres; uma vez que pecar (pelo menos no ato primeiro) exige capacidade de escolha?
...reservando-os para juízo; (2 Pe 2:4)
Como qualquer ser pode ser julgado, se não for moralmente responsável?
Além do que, parece não haver dúvidas de que os anjos, também, são racionais, senão estariam impossibilitados de comunicar-se e de
arrazoar conosco, como fizeram, por exemplo, com Ló (Gn 19:10-22).
Se ser imagem-semelhança é ser transcrição do eterno em termos de existência temporais, os anjos, também, estão incluídos, pois, são criaturas e estão no tempo, pois, tiveram começo, ainda que o tempo, talvez, não lhes faça diferença. E, em ambos os casos, os anjos fiéis não perderam nada de sua criação original.
Entretanto, somente do homem é dito que foi criado à imagem e semelhança de Deus.
Gosto de pensar que esta imagem-semelhança inclui, além do já citado, algo que só é comum a Deus e a nós: a unidade.
"A última palavra hebraica da Shema (Dt 6.4,5) é echad, um substantivo coletivo, em outras palavras, um substantivo que demonstra unidade, ao mesmo tempo que se trata de uma unidade que contém várias entidades. Poderíamos citar um bom número de exemplos.(...) Em Nm 13.23 os espias pararam em Escol, onde 'cortaram um ramo de vide com um cacho de uvas'. A palavra que aqui aparece com 'um', em 'um cacho', novamente é echad, no hebraico. Mas, como é evidente, esse único cacho de uvas consistia em muitas uvas." Stanley Rosenthal
E criou Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus os criou; macho e fêmea os criou. Gn 1.27 (RC).
Seriam, realmente, duas criações?
Então, formou o SENHOR Deus ao homem do pó da terra e lhe soprou nas narinas o fôlego de vida, e o homem passou a ser alma vivente. (Gn 2:7) Então, o SENHOR Deus fez cair pesado sono sobre o homem, e este adormeceu; tomou uma das suas costelas e fechou o lugar com carne. E a costela que o SENHOR Deus tomara ao homem, transformou-a numa mulher e lha trouxe. (Gn 2:21,22)
Macho e fêmea parecem ser uma criação só, pois, o barro e o sopro (que dá vida ao ser humano) só aparecem uma vez. O segundo ser não é uma segunda criação, é uma duplicação. Sendo que, no segundo ser, Deus fez desabrochar características que não fizera desabrochar no primeiro.
Este é o livro da genealogia de Adão. No dia em que Deus criou o homem, à semelhança de Deus o fez; homem e mulher os criou, e os abençoou, e lhes chamou pelo nome de Adão, no dia em que foram criados. (Gn 5:1,2)
Duas pessoas, um só nome. De fato, a mulher só ganhou o nome de Eva depois da queda: E deu o homem o nome de Eva a sua mulher, por ser a mãe de todos os seres humanos (Gn 3:20). E por que? Penso que só após a queda o macho teve autoridade para tal: e à mulher disse: Multiplicarei sobremodo os sofrimentos da tua gravidez; em meio de dores darás à luz filhos; o teu desejo será para o teu marido, e ele te governará (Gn 3:16). Se Deus condenou a mulher a essa condição subserviente ao homem como consequência da queda, é de se supor que antes não era assim, isto é, a relação entre ambos não era de autoridade; era, quero crer, de unidade.
O homem à imagem e semelhança de Deus, sugiro, é um ser coletivo. Quando Deus chamava: Adão! Macho e fêmea se voltavam para falar com Ele.
"Em Gn 2.24, Deus (...) instruiu marido e mulher a tornarem-se 'os dois uma só carne', indicando que aquelas duas pessoas unir-se iam, formando perfeita e harmônica unidade. Em tal caso, novamente a palavra hebraica é echad." Stanley Rosenthal
Se Deus é uma família, que criatura poderia expressar sua imagem-semelhança senão se constituísse, também, numa família?
Se Deus é uma unidade-comunhão como uma criatura que não se constituísse noutra unidade-comunhão poderia ser chamado de sua imagem-semelhança?
Me parece que o projeto divino passava estritamente pela unidade: criou um casal apenas, logo, uma só família; criou-os tendo a si como modelo: o que caracteriza a trindade é o amor, vínculo da perfeição, isto é, que une perfeitamente; logo, criou-os para, a exemplo da trindade, amarem-se com esse amor que unifica. Criou-os para viverem em unidade. Criou-os como unidade. Se não tivéssemos caído, seríamos bilhões, talvez, entretanto, à semelhança da trindade, nos amaríamos tanto que, apesar de muitos, seríamos um só homem: o homem à imagem e semelhança de Deus.
Não seria por aí o caminho de perceber a atuação da graça de Deus na cultura?
Gosto de pensar que a graça de Deus se manifesta nos elementos gregários de uma dada cultura.
Se é fato que o homem que Deus criou é comunitário, então, em todo o elemento cultural que leve o ser humano à consciência do outro; ao senso de pertencimento; à celebração comunitária; à solidadriedade; à justiça deverá, em alguma medida, ser fruto da graça de Deus – a graça que mantêm todas as coisas.
E plantou o SENHOR Deus um jardim no Éden, na direção do Oriente, e pôs nele o homem que havia formado(Gn 2:8).
Não é curioso que após ter comunicado à sua criatura a relação de domínio que teria sobre o planeta, Deus o coloque num jardim?
Parece-me que, ao fazer isto, Deus propõe um modelo. O domínio dar-se-ía não pela subjugação mas pela interação.
Uma vez que jardim manifesta harmonia e superação, pois a beleza é resultado de interação tal, que a beleza do todo é maior que a soma da beleza das unidades.
Dessa forma deveria ver-se como um maestro, cuja responsabilidade seria administrar de tal maneira seu "habitat", que o mesmo se tornasse qual jardim, onde impera a cooperação e a harmonia, o que faz com que cada unidade se supere pela associação com o todo.
Seria, portanto, em algum nível, ato da graça, quando, numa dada cultura, se privilegia a interação homem/natureza.
Sinais de Deus
"E, na verdade, cuidei que vós outros, Senhores, com todos os teólogos, não somente assegurais que a existência de Deus pode ser provada pela razão natural, mas também se infere da Santa Escritura que o seu conhecimento é muito mais claro o que se tem de muitas coisas criadas e que, com efeito, esse conhecimento é tão fácil que os que não o possuem são culpados. Como é patente nestas palavras da Sabedoria, capítulo 13, onde é dito que 'a ignorância deles não é perdoável: pois se seu espírito penetrou tão a fundo no conhecimento das coisas do mundo, como é possível que não tenham encontrado mais facilmente o Soberano Senhor dessas coisas?' E aos Romanos, capítulo primeiro, é dito que são indesculpáveis. E ainda no mesmo lugar, por estas palavras: 'o que é conhecido de Deus é manifesto neles', parece que somos advertidos de que tudo quanto se pode saber de Deus pode ser demonstrado por razões, as quais não é necessário buscar alhures que em nós mesmos, e as quais nosso espírito é capaz de nos fornecer." René Descartes
Descartes afirmava, julgando interpretar as escrituras, que Deus se deu a conhecer na natureza, bastando uma inspeção do espírito para captá-lo. Assim ele justificou suas "meditações".
Em que pese a ousadia de Descartes, seria de se esperar que um Deus gracioso deixasse marcas de sua presença.
Richardson conta mais 25 histórias fascinantes, que mostram que a semente do evangelho foi deixada por Deus em cada cultura do mundo. Ele chama este tipo de revelação geral de Deus, 'O Fator
Melquisedeque', usando o nome do sacerdote a quem Abraão prestou homenagem no livro de Gênesis. Os Editores
"Richardson argumenta que Deus deixou um testemunho profundo, que pode e deve ser aproveitado como ponto de contato pelo missionário." Richard J. Sturz
Creio que é esperado de um Deus que quer apresentar-se, que sua graça se manifeste em cada cultura, criando pontos de contato desta com o evangelho.
Tal ação da graça, creio, opera sensibilidade ao belo, à ternura, ao amor, à vida, assim como algum nível de revelação.
No que tais ponderações deveriam afetar a interação da igreja com as diversas culturas?
1- Na abordagem à cultura. Entendo que, sob tais prismas, a aproximação à cultura tem de partir de uma perspectiva positiva: a ação da graça na mesma. Numa busca, portanto, de pontos de contato. 2- Na contextualização. Nesses parâmetros, contextualização deixa de ser o uso sincrético de seus símbolos espirituais, para tornar-se o reforço do que há de divino na cultura em questão. 3- Ao invés do juízo, entra em ação a compreensão da cultura em sua complexidade. 4- Na co-beligerância. Uma vez compreendida a ação da graça no despertar da consciência de justiça, solidariedade, etc; a igreja deveria dispor-se a envolver-se em toda a causa pró emancipação do homem, tornando-se parceira dos que, pela graça divina, estão sendo despertados para mitigar o sofrimento humano. 5- Na responsabilidade ecológica. A Igreja deveria estar à frente da luta ecológica, no sentido de mitigar o sofrimento imposto à natureza. Seguindo o modelo do jardim.
A graça de Deus na sociedade e na economia
"porque se apresenta como um dever-ser, como o projeto histórico de Deus." Hirata
Falar, penso, nesse tema é falar do reino de Deus. O reino como utopia é a graça nos dando direção.
"Buscar o reino e a justiça de Deus, significa trabalhar para mover o mundo na direção das prioridades do reino" Howard Snyder
Parece-me que há três perguntas que humanidade faz: quem somos? Como administrar a riqueza? Como viver juntos?
O reino, creio, responde-as: de Deus e para Deus; solidariedade; fraternidade.
Tais respostas colidem com o sistema que, para respondê-las gerou um sem número de filosofias e religiões; um sem número de teses econômicas; um sem número de propostas de organização da sociedade.
A graça deu os princípios, caberia-nos dar-lhe concreção histórica.
"Assim sendo, o peso histórico do reino de Deus, que vem a ser a realidade mais inclusiva, elimina o papel platonizante que tinha a escatologia tradicional que podia dar-se ao luxo de condenar a história e a matéria como realidade inferior. Doravante, a escatologia, que era entendida antes como doutrina sobre o final dos tempos, terá uma relação necessária com a história. A recuperação do sentido histórico do reino de Deus resgata o caráter necessário da ação humana na construção desse reino." Samuel Silva Gotay
Daniel 2. 31-45, apresenta o reino como uma pedra solta por mãos não humanas que se choca com a estátua, destruindo-a de forma cabal.
Penso que estátua representa não só a sequência escatológica dos reinos, como, também, toda a tentativa humana de resolver o dilema da humanidade sem levar em conta a vontade e a realidade de Deus, e que o fato de aparecer como uma estátua revela o seu caráter idolátrico. O reino é a resposta de Deus ao citado dilema, que confronta e destrói a solução idólatra. Tal confronto, quero crer, concede necessária historicidade ao reino.
Na história da teologia da libertação, a obra coletiva – A luta dos deuses – é , sem dúvida, um marco importante no tratamento da idolatria como um tema central da teologia. Neste livro, Pablo Richard defendeu, a partir da afirmação de 'o capitalismo não é ateu, mas sim idólatra', a idéia de que 'o problema de Deus só pode ser racionalizado teologicamente a partir de uma perspectiva de confronto com o sistema religioso do capitalismo moderno'. Na introdução ao livro, a Equipe Dei afirmava que 'mais trágico que o ateísmo é o problema da fé e da esperança nos falsos deuses do sistema' e que a fé no Deus libertador 'passa necessariamente pela negação e a apostasia dos falsos deuses. A fé torna-se antiidolátrica.' Por isso concluíram a introdução dizendo que 'o problema dos ídolos da opressão e da busca do Deus libertador adquire hoje uma nova dimensão, tanto na tarefa evangelizadora como na tarefa política. É aí que a teologia da libertação encontra um de seus desafios mais fecundos.' Em outras palavras, a teologia numa sociedade capitalista
só adquire relevâcia histórica se se defrontar com a idolatria vivida no capitalismo." Jung Mo Sung
Gostaria de, como ilustração, apresentar um possível desenvolvimento dos princípios numa situação dada, no caso, nossa realidade nacional.
Jesus Cristo, segundo o registro de Mc 10.42-45"(blh), disse: "Vocês sabem que aqueles que são considerados governantes das nações as dominam, e os seus grandes exercem poder sobre elas. Não será assim entre vocês. Pelo contrário, quem quiser tornar-se grande entre vocês deverá ser servo; e quem quiser tornar-se o primeiro deverá ser servo de todos. Pois nem mesmo o Filho do homem veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate de muitos".
Jesus Cristo preconizou uma nova sociedade, cujo poder governamental seria exercido por meio do serviço a todos. Uma sociedade de cidadãos, onde todos seriam cidadãos, pois, só uma sociedade em que o governo assume a sua vocação de servo, de todos, é que a cidadania floresce.
Na sociedade do Cristo, o poder deveria ser exercido dessa forma para que a sociedade pudesse cumprir a sua vocação, qual seja: uma sociedade onde o uso da terra fosse regulamentado, tendo em vista o bem de todos, pois, como disse o profeta Isaías: Deus não admite que alguém possa comprar casa sobre casa e terra sobre terra até ser o único morador do lugar. Na sociedade do Cristo a terra teria de ser repartida entre todos, pois é para todos. Este tipo de coisa só acontece quando o governo está a serviço de todos. uma sociedade onde a riqueza fosse distribuída com eqüidade, pois, como disse o apóstolo Paulo: Deus quer quem colheu demais não tenha sobrando, e o que colheu de menos não tenha faltando. Uma sociedade com consciência de coletividade. O que só acontece quando o governo está a serviço de todos. uma sociedade onde o trabalhador usufruísse da riqueza que produz, pois, como está escrito: o trabalhador é digno de seu salário e mais, não se pode amordaçar o boi que debulha o milho, isto é, aquele que produz deve ser o primeiro a usufruir do que produziu. Uma sociedade de trabalhadores para trabalhadores. O que só acontece quando o governo está a serviço de todos. uma sociedade onde a criança fosse prioridade, pois, Deus não quer que nenhum dos pequeninos se perca, e ameaça com duras penas a sociedade que desviar as crianças de sua vocação divina: vocação à saúde; à educação; à segurança; à longevidade; ao emprego – enfim uma vida que possa ser celebrada. O que só acontece quando o governo está a serviço de todos. uma sociedade onde os orfãos e as viúvas, isto é, os que tudo perderam, não ficasssem desamparados, pelo contrário, parte da produção seria destinada exclusivamente para estes, para que não
houvesse miséria na sociedade. Uma sociedade onde todos desfrutassem do direito à dignidade. Uma sociedade de cidadãos, pois, só onde há dignidade há cidadania. uma sociedade onde o idoso fosse referencial de sabedoria, nunca um fardo, pois, na bíblia, o idoso é o conselheiro que ajuda o jovem na sua caminhada e, por este é visto como um mentor, como alguém que é guardião dos valores que devem nortear a sociedade. Alguém que deve ser honrado, o cidadão por excelência, pois construiu e legou para as gerações que o sucedem.
Na sociedade preconizada por Cristo o conjunto de cidadãos é o estado. E todos são cidadãos. Por isso, o governo estaria a serviço de todos. E estar a serviço significaria que o governo estaria sob o controle da cidadania, E porque o governo estaria sob o controle, os direitos humanos seriam respeitados. E onde os direitos humanos são respeitados há previdência, isto é, o futuro do cidadão estaria assegurado, ou seja, o cidadão seria o beneficiário da riqueza que produziria. E mais, previdência seria um conceito que abrangeria não apenas a saúde ou a velhice, mas a escola, a segurança, o emprego, o lazer, enfim, tudo o que dá qualidade à vida. Nesta sociedade, o governo seria um agente previdenciário, e o futuro seria, não como algo que quanto mais remoto melhor, mas como uma sucessão de presentes, onde cada dia traria a garantia de um futuro assegurado.
No Brasil estamos com sérios problemas na questão da previdência e dos direitos humanos, porque o Brasil não é uma sociedade de cidadãos. Há cidadãos, mas são poucos, o resto é o povo.
Os cidadãos são os que detêm o poder econômico, são os que financiam a classe política, eles é que são representados, é a quem o governo serve. Para tais não há problema de previdência ou de respeito aos direitos humanos, pois, todos os seus direitos são respeitados.
Como já foi propalado, vivemos o "apartheid" no Brasil. De um lado os detentores do poder econômico, doutro lado o povo. Dizem aos membros do povo que eles, também, são cidadãos, porém, é uma inverdade, pois, o povo não tem direito ao voto, tem a obrigação do voto, e vota só para legitimar o que os poucos cidadãos já decidiram. O povo vota, mas, não veta, e quem não tem o poder de veto, de fato não exerceu o direito do voto, porque não tem como obrigar os eleitos a serem os representantes que deveriam ser, consequentemente nunca terá seus direitos respeitados. Quem respeita gente que só serve de massa de manobra? E mais, o voto do povo tem sido fruto de grandes campanhas de marketing, que o leva a sufragar alguém com quem não tem a mínima identificação, de quem nunca mais saberá nada, até que, através de outra campanha de marketing, seja chamado a legitimar os desejos da classe dominante.
Durante o mandato de seus pretensos representantes, uma vez que constitui a maioria da população, o povo terá de engolir falácias de todo o tipo, tais como: 1- A solução é a privatização. Solução do que ninguém explica. Solução para a saúde da empresa, certamente não é, pois, a solução para a saúde de qualquer empreendimento é a boa administração. 2- Todo subsídio é danoso, empresa estatal só pode cumprir o seu papel social com eficiência, se for lucrativo. Nunca é dito que empresas estatais, com estratégico papel social, não têm de ser eficientes, têm de ser eficazes, não é uma questão de fazer "certo" as coisas, mas, sim, de fazer as coisas certas, isto é, de cumprir o seu papel social. Por exemplo: o trabalhador não paga imposto para que a empresa municipal de transporte urbano dê lucro, mas para que possa ser transportado com dignidade. 3- Que o grande problema é a inflação. Nunca é o desemprego, a miséria, o analfabetismo, os baixos salários, a fome. E que para resolver este grande problema tem de haver mais desemprego, mais salários baixos, mais miséria e mais fome. O povo cede e problema nunca se resolve. Quando parece que agora vai...surge uma nova crise e mais sacrifício. 4- Que não há dinheiro para os programas sociais e, muito menos, para a previdência social. Que o fardo que a previdência carrega é por demais elevado. Mas como pode ser por demais elevado se o trabalhador apenas quer aquilo pelo que pagou, e sempre recebe muito menos? Por que não é dito que num órgão onde a corrupção caminha de mãos dadas com a impunidade não há dinheiro que cheque? Que o trabalhador paga, porém, a sonegação desvia o dinheiro e não há combate sério a esta? Que num país em que as grandes fortunas não são taxadas, em que o capital especulativo tampouco é devidamente taxado, assim como os lucros astronômicos das instituições financeiras, nunca haverá mesmo recursos para projetos sociais?
Que fazer diante disso? É preciso um milagre. Não o milagre sobrenatural, mas o milagre da conscientização, o milagre que abre os olhos. Cada trabalhador, cada marginalizado tem de se conscientizar de que povo é uma categoria que não existe, ou se é cidadão ou não se é nada. Cada um destes tem de se conscientizar de que para que os seus direitos sejam respeitados, para que o governo não lhe engane com falácias, ele tem de fazer-se cidadão, ou seja , tem de se ver como alguém a quem o governo tem de servir, tem de transformar a obrigação do voto no exercício do direito de votar, votar só naqueles sobre quem tem o poder de veto, e transformar isso em lei. A categoria povo tem de ser substituída pela categoria sociedade – sociedade de cidadãos. Sociedade onde a lei é para todos; que tem um projeto de estado – estado previdenciário. A recentíssima história tem nos feito ver, que onde a consciência de cidadania triunfa, as forças progressistas são sufragadas e, consequentemente, desaparece o povo e surge o cidadão e a sociedade. Que assim seja em Nome do Senhor Jesus Cristo.
A tarefa da Igreja é tornar-se instrumento da graça em toda a sua abrangência. Penso que, neste caso, ser agente da graça é ser postuladora e conscientizadora das políticas do Reino de Deus.
Creio que a Igreja Brasileira precisa deixar de apenas usufruir a graça para tornar-se propagadora da graça. Em cada um dos quesitos levantados há o que fazer se a igreja brasileira quiser, de fato, ser agente da graça em nosso território. Ariovaldo Ramos - Teólogo e Pastor da Igreja Cristã Reformada e Missionário da SEPAL.